Especulações sobre Riesling, cerveja e vinhos tintos para torcer

Dá para beber vinhos na Copa do Mundo? É claro que dá! No Brasil, o período da Copa coincide com a  estação climática mais associada a vinhos, embora a tradição associe o futebol muito mais à cerveja. A energia mais expansiva do jogo de futebol e da torcida compartilhada com a multidão está mais associada a bebidas frescas, energéticas, independentemente da época do ano. Assim, na hora típica do vinho tinto – que esquenta e traz uma aura mais introspectiva – fica a dúvida: será que vai combinar?

Contudo, se há convenções que estabelecem, consensualmente, essas associações mais regulares, há também particularidades que coexistem com as regularidades. Por exemplo, vamos supor que eu vá assistir à Copa do Mundo na Alemanha (esqueçam por um momento do 7×1!). Enquanto aqui é inverno, lá acabam de pousar os ares quentes do verão. Eu chego ao estádio e peço uma cerveja, embalada por aquele típico desejo de me refrescar. Aí, me servem uma cerveja mais ou menos gelada – que decepção! (isso já aconteceu comigo)

Embora a Alemanha seja um país conhecido pela produção e consumo de cervejas, temperaturas muito altas, como as nossas, são mais exceção por lá e, certamente, há menos demanda por cervejas “estupidamente geladas”. Provavelmente, neste contexto – com verão e futebol – eu iria optar por uma taça de um bom Riesling alemão, que não precisaria estar estupidamente gelado, mas suficientemente refrescante.

Cheguei aonde eu precisava: eis aí uma boa dica de vinho para a Copa, em qualquer lugar do mundo! Os vinhos da Riesling, em sua região de origem (Vale do Rio Reno), podem ser excepcionais, mas hoje a presença da uva está em vários lugares do mundo. Aqui na América do Sul, já bebi bons Rieslings no Chile, no Uruguai e, eventualmente, até no Brasil.

Bem próximo ao estádio em que o Brasil fez a sua estreia, em New Jersey, temos a produção do Estado de Nova York e, numa área de destaque, na AVA Finger Lakes, o vinho branco mais prestigiado é o Riesling. No Estado de Washington, na Costa Oeste, onde também houve jogos neste ano, outros bons Rieslings. É uma uva que se produz em lugares frios, mas que faz um vinho muito aromático e de acidez vertical. Nessa mesma perspectiva, pode-se optar pelos vinhos da Sauvignon Blanc ou da Alvarinho e pelos maravilhosos espumantes brasileiros.

Mas, pensando em quem está aqui, no inverno, em temperaturas muito baixas, talvez o vinho tinto também combine com o futebol. Basta calibrar um pouco o perfil caloroso do vinho tinto com certa dose de frescor, leveza, vivacidade. Isso se faz pela escolha de vinhos tintos menos encorpados, com menos álcool, estrutura tânica e, de preferência, boa acidez. Algumas uvas já são promessa desse perfil, mas a origem também conta e o próprio método de produção.

A uva mais conhecida pela sua delicadeza é a Pinot Noir, com seus exemplares icônicos da Borgonha, mas que hoje é produzida em muitas regiões. Assim como a Riesling, se identifica com áreas mais frescas, por exemplo, na América do Sul: Valle de Casablanca e Valle del Itata (Chile); Patagonia (Argentina); áreas serranas do sul do Brasil.

Meio parente da Pinot Noir na leveza é a Gamay, que tem sua principal produção na região de Beaujolais, França. No universo italiano, alguns vinhos da Dolcetto, do Piemonte podem surpreender. Os vinhos portugueses tintos podem ser mais encorpados. No entanto, é possível encontrar vinhos de corte do Dão equilibrados pela boa acidez, que a altitude média da região propicia. Há vinhos verdes tintos também, leves e mais raros.

A outra opção resulta menos de uvas leves e mais dos métodos de produção. Atualmente, muitos produtores vêm criando rótulos que vão na contramão da regularidade produtiva de uma uva, optando por vinhos que correspondem mais ao tipo Clarete – um vinho tinto mais claro, pouco extraído em cor e taninos. Alguns desses vinhos podem surpreender bastante pela leveza e presença de fruta. Você os bebe como vinhos brancos ou rosés.

Alguns degustados recentemente: Quinta do Mondego Family Jaen 2024, do Dão, Portugal; Château du Cedre L’Improbable 2024, feito da Malbec em Cahors, França; Perez Cruz Grenache, produzido desde 2022 no Valle del Maipo, Chile.

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