Se você é adepto incondicional da filosofia ‘carpe diem’, esqueça!

A menção do ano de colheita na garrafa irá se generalizar na segunda metade do século XX, em função da crescente organização de degustações especializadas, da necessidade de referências para a conservação e guarda dos vinhos e, ainda, na França, em decorrência da criação do sistema de AOCs. A safra não aponta apenas a idade do vinho, mas pode dizer muito sobre a sua qualidade, não somente se tem potencial para ser bom ou ruim, mas de sua tendência a apresentar certas características: vinhos mais leves para serem consumidos jovens, vinhos de guarda, vinhos com mais acidez, mais alcoólicos etc – todos resultam das qualidades das uvas, que dependem do clima. É fato que isso demanda um conhecimento e acompanhamento pontual de certas produções, o que acontece normalmente em relação a uma gama de vinhos de qualidade notória e preços compatíveis.

Um clima ruim pode impactar apenas a quantidade, gerando perdas, porque muitos frutos não vingaram na primavera ou porque geadas, pragas, acidentes atravessaram o percurso e reduziram a produção de vinhos, apesar de eles apresentarem uma qualidade positiva. Isso vai acontecer nas mais nobres regiões mundiais, como Borgonha e Bordeaux, que lidam com uma significativa instabilidade climática, especialmente em tempos de aquecimento global. As propriedades produtoras dos vinhos mais célebres muitas vezes nem se arriscam a manchar sua reputação com produtos que não correspondam à qualidade que os consagrou.

Dentro de uma região rigorosamente demarcada, uma boa safra indica, em tese, bons produtos para todos – o produtor deve fazer jus a seu diferencial. As safras ruins, entretanto, acabam abonando desvios, mas também tendem a sacrificar os preços de todos. Os anos de climas desastrosos para a vinha são muitas vezes denominados “Safras dos Enólogos”, justamente porque impõem desafios às condutas rotineiras dos produtores, para minimizar os impactos do clima nas qualidades e quantidades usuais de seus vinhos.

Para o consumidor que não quer acompanhar nenhum desses detalhes, o que saber e fazer? Falando de modo mais genérico, para começar, regiões de climas do tipo mediterrâneo – com pouca propensão a chuvas excessivas em momentos cruciais para a vinha e boa insolação no momento da colheita – tendem a contar com uma estabilidade de safras, poucas perdas, menos riscos de pragas e qualidade estável. Exemplos: Vale Central/Chile, Napa Valley e Costa da Califórnia, Oeste e Sul da Austrália, Cape Town/África do Sul, Sul da França, Centro-sul da Itália, Sul da Espanha e boa parte de Portugal.

Climas continentais e marítimos são mais trabalhosos e susceptíveis de qualidade irregular, isso não se levando em conta outros aspectos que podem facilitar ou dificultar os resultados, como altitude, ventos etc. Vinhos muito comerciais, de grande quantidade, são mais tecnológicos. Corre-se pouco risco de perda, faz-se muita correção na produção, já que se trabalha com um mínimo denominador de qualidade.

Há vinhos tradicionalmente não safrados, como os espumantes e boa parte dos vinhos fortificados. O corte (assemblage) de parcelas e safras diferentes é um recurso para garantir um padrão mais fixo de qualidade. Bom exemplo disso é Champagne, cujo clima é muito extremo e susceptível a variações e, assim, as marcas criaram uma identidade de corte, um estilo de sabor que as consagraram e que tentam reproduzir com fidelidade, fazendo um equilíbrio entre os seus vinhos de base e safras boas e ruins. Nesses casos, a exceção é o que chama a atenção: quando há vinhos safrados, são excepcionais. Um Champagne Millésime, um Porto Vintage são vinhos diferenciados, feitos de safras muito especiais e, por conseguinte, muito caros.

Para os vinhos de porte de regiões com variações significativas, um recurso bom para o consumidor é acompanhar as safras. É simples encontrar tabelas de safras regionais, fornecidas por importadoras, lojas especializadas, guias críticos e sites de vinhos dessas regiões, até mesmo de países com menos variações. Se você vai investir em vinhos caros, não custa tentar escolher uma boa safra. Atenção: para estes vinhos (tintos, especialmente), normalmente as melhores safras são as com maior potencial de guarda. E aí, se você é adepto incondicional da filosofia “carpe diem”, esqueça! Terá que buscar as safras antigas deste vinho em algum leilão!!!

Para saber mais sobre eventos, turmas abertas de formação em vinhos da Escola Cafa, de Bordeaux, entre outros projetos realizados por Miriam Aguiar, visite miriamaguiar.com.br

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