{"id":67,"date":"2020-03-20T17:10:49","date_gmt":"2020-03-20T17:10:49","guid":{"rendered":"http:\/\/miriamaguiar.com.br\/blog\/?p=67"},"modified":"2021-02-28T21:51:01","modified_gmt":"2021-02-28T21:51:01","slug":"meus-momentos-de-panico-nas-fronteiras-entre-covid-19-e-uruguai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/meus-momentos-de-panico-nas-fronteiras-entre-covid-19-e-uruguai\/","title":{"rendered":"Meus momentos de p\u00e2nico nas fronteiras entre Covid-19 e Uruguai"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Naquele momento, o meu medo passou a ser outro \u2013 o de n\u00e3o conseguir retornar ao Brasil.<\/h2>\n\n\n\n<p>Imposs\u00edvel n\u00e3o me reportar ao coronav\u00edrus mesmo numa coluna de vinhos, afinal todos os campos da sociedade est\u00e3o de certo modo afetados pela pandemia em curso que, em tempos de globaliza\u00e7\u00e3o, se dissemina com muita rapidez. Assim, sentada \u00e0 frente do computador no meu apartamento em que estou reclusa h\u00e1 tr\u00eas dias, resolvi fazer uma esp\u00e9cie de relato do que se passou nos \u00faltimos dias na minha tentativa mais ou menos bem-sucedida de visitar a vitivinicultura do Uruguai.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o final do ano, planejei voltar ao Uruguai \u2013 que visitei em 2013 \u2013 aproveitando uma promo\u00e7\u00e3o de troca de milhas da Latam. Apesar do curto per\u00edodo que eu programei para me ausentar, entrei em contato com alguns produtores, o suficiente para ter uma rica agenda de visitas por quatro dias. O meu embarque estava marcado para 13 de mar\u00e7o e, poucos dias antes, a chegada do v\u00edrus no Brasil come\u00e7ava a provocar impactos. Cogitei a mudan\u00e7a de planos, mas consultei a Latam e o hotel sobre a possibilidade de remarca\u00e7\u00e3o, e a sinaliza\u00e7\u00e3o era negativa. Ent\u00e3o, arrisquei ir.<\/p>\n\n\n\n<p>O Uruguai encontra-se em pleno momento de colheita e havia festas da vindima programadas, algumas mais culturais, como parte da tradi\u00e7\u00e3o, algumas planejadas pelo enoturismo. Interessava-me rever o Uruguai e constatar o desenvolvimento de sua vitivinicultura ao longo desses anos in loco, bem como perceber os resultados da \u00faltima safra. No dia em que cheguei, j\u00e1 mais tarde, eu ainda estava excitada com a possibilidade de ter uma curta viagem bem cheia de atra\u00e7\u00f5es. Iniciei minha temporada indo a um bar de vinhos pr\u00f3ximo ao hotel, chamado Wine Experience, para degustar algumas ta\u00e7as e gostei.<\/p>\n\n\n\n<p>Bebi uma ta\u00e7a de vinho da variedade Albari\u00f1o (da Bodega Cerro del Toro), uva t\u00edpica da Gal\u00edcia, que tem sido muito vinificada no Uruguai. Fresco e arom\u00e1tico, foi uma \u00f3tima pedida para come\u00e7ar. Em seguida, pedi ao dono do wine bar, que parecia bem conhecedor, que me indicasse um vinho tinto que n\u00e3o fosse da Tannat. Ele me trouxe um Merlot da vin\u00edcola Alto de la Balena, j\u00e1 visitada por mim anteriormente, e este estava uma p\u00e9rola. Finalmente, a terceira ta\u00e7a deveria ser de Tannat, e eu pedi que ele escolhesse um Tannat bom e mais pronto para o consumo, pois muitos demoram a perder a agressividade dos taninos. Muito bom tamb\u00e9m e foi produzido pela sua fam\u00edlia, que, a cada ano, escolhe uma vin\u00edcola para a concess\u00e3o de uvas e vinifica\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio vinho. Este era da Bodega Artesana e nem tinha r\u00f3tulo \u2013 caseiro mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para acompanhar essas ta\u00e7as, pedi bruschettas e uma t\u00e1bua de queijos, embutidos, p\u00e3es e azeite caseiros, com os quais me deleitei. Vinda de uma agenda cheia de compromissos desde o in\u00edcio do ano, eu estava bem cansada e acordei no dia seguinte com um pouco de dor de cabe\u00e7a e c\u00f3licas intestinais, em fun\u00e7\u00e3o dos ingredientes gordos, que n\u00e3o est\u00e3o muito presentes na minha dieta. Foi nesse momento que eu me dei conta do risco de infec\u00e7\u00e3o com a Covid-19. Entrei em p\u00e2nico e procurei saber se problemas intestinais podiam ser sintomas do v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>Comecei a imaginar como seria o meu atendimento se eu estivesse infectada e cheguei a ligar para o meu seguro de viagem, tendo sido informada de que se o atendimento fosse em decorr\u00eancia do coronav\u00edrus, a seguradora n\u00e3o arcaria com nada, nem com o tratamento dos sintomas iniciais, j\u00e1 que no contrato consta que as seguradoras est\u00e3o desobrigadas de custos relacionados a pandemias. Fiquei apavorada e, ap\u00f3s alguns contatos no Brasil, percebi que eu estava amedrontada sem motivo. Como isso \u00e9 duro, pensei. Importa mais a manuten\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios do que a solidariedade humanit\u00e1ria. Pensei em quantas pessoas morrem por n\u00e3o serem assistidas, quando a defesa da sa\u00fade deveria ser priorit\u00e1ria e realmente precisa de um sistema estatal forte para garantir cuidados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, fui recebendo mensagens de que as vin\u00edcolas estavam fechadas \u00e0 visita\u00e7\u00e3o, bem como as festas da vindima, que reuniriam muitas pessoas, pois o v\u00edrus acabara de chegar ao Uruguai, com quatro casos confirmados. Atitude correta \u2013 azar meu. Consegui visitar a Pizzorno Family Estates, na qual j\u00e1 tinha estado em 2013 e fui muito bem recebida pelo propriet\u00e1rio Carlos Pizzorno. Enquanto convers\u00e1vamos, um grupo de brasileiros de S\u00e3o Paulo era recebido pelo seu filho e comentavam que suas visitas tamb\u00e9m foram canceladas.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, o meu medo passou a ser outro \u2013 o de n\u00e3o conseguir retornar ao Brasil, uma vez constatado que tudo estava mudando muito r\u00e1pido. Acessei o site da Latam e fiquei sabendo que, como eu havia comprado a passagem com milhas, eu n\u00e3o poderia antecipar o voo diretamente no site, teria que ser por chat. Tentei, havia 300 na minha frente, passei duas horas e nada. Tentei umas cinco vezes, e o lugar na fila s\u00f3 aumentava \u2013 o \u00faltimo era 598.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, no dia do meu retorno, duas vin\u00edcolas me receberam \u2013 a Bodega De Lucca e a Pisano Artesania en Vinos Finos. Poucas visitas, mas valiosas! Marquei com a locadora de carro mais cedo no aeroporto para tentar antecipar o meu voo, que sairia de madrugada, e encontrei uma fila gigante de pessoas de m\u00e1scaras nos rostos e \u00e1lcool gel na m\u00e3o, angustiadas para chegarem aos seus destinos. Consegui antecipar, quase na hora de o voo decolar \u2013 creio que tenha ajudado o fato de eu estar numa categoria de prioridade na cia. a\u00e9rea, j\u00e1 que viajo muito. Trouxe bons vinhos na bagagem e contarei mais do que conversei, vi e experimentei em termos de vinhos do Uruguai no pr\u00f3ximo artigo, pois n\u00e3o poderia deixar de relatar parte deste cen\u00e1rio inusitado e apavorador daquilo que estamos vivendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para participar dos cursos de vinhos ministrados por M\u00edriam Aguiar: Instagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/miriamaguiar.vinhos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><u>@miriamaguiar.vinhos<\/u><\/a>, site <a href=\"http:\/\/miriamaguiar.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">miriamaguiar.com.br<\/a> e e-mail <a href=\"mailto:maguiarvinhos@gmail.com?subject=contato\">maguiarvinhos@gmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquele momento, o meu medo passou a ser outro \u2013 o de n\u00e3o conseguir retornar ao Brasil. 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