{"id":464,"date":"2020-12-11T17:30:23","date_gmt":"2020-12-11T17:30:23","guid":{"rendered":"http:\/\/miriamaguiar.com.br\/blog\/?p=464"},"modified":"2021-03-10T13:38:37","modified_gmt":"2021-03-10T13:38:37","slug":"o-novo-chile-e-algumas-reflexoes-sobre-inovacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/o-novo-chile-e-algumas-reflexoes-sobre-inovacoes\/","title":{"rendered":"O Novo Chile e algumas reflex\u00f5es sobre inova\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2019, eu escrevi uma s\u00e9rie de artigos sobre as regi\u00f5es vitivin\u00edcolas do Chile para esta coluna, e terminei falando das inova\u00e7\u00f5es em curso, com a explora\u00e7\u00e3o de \u00e1reas situadas a norte, sul, na costa do Pac\u00edfico, visando uma produ\u00e7\u00e3o de vinhos com perfis distintos do que foi mais representativo nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Al\u00e9m de novas regi\u00f5es, multiplica-se a experimenta\u00e7\u00e3o de novas cepas, os engajamentos em produ\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas, a varia\u00e7\u00e3o nos m\u00e9todos na vinifica\u00e7\u00e3o, de forma a gerar produtos, digamos, mais \u201cautorais\u201d. Os resultados geram expectativas em consumidores cada vez mais&nbsp;<em>connaisseurs<\/em>, que buscam n\u00e3o apenas apreciar o vinho, mas entend\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui convidada a conhecer o projeto Novo Chile Wine-Week 2019, que aconteceu no eixo Rio-S\u00e3o Paulo, voltado \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de um grupo de produtores independentes. Fiquei muito curiosa a respeito, mas, infelizmente, n\u00e3o pude comparecer ao evento nas datas. Em 2020, o evento ganhou sua vers\u00e3o digital: Novo Chile On-Wine, com uma programa\u00e7\u00e3o de palestras, degusta\u00e7\u00f5es, entrevistas e cursos online. Recebi dois vinhos para participar de uma live com dois produtores do projeto. Tem sido dif\u00edcil cobrir a quantidade de iniciativas do mundo do vinho no Brasil. H\u00e1 uma efervesc\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao tema nas redes e, como os eventos presenciais (que eram locais) n\u00e3o podem acontecer, tudo passou para o formato virtual, que, em tese, est\u00e1 dispon\u00edvel para todos.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto Novo Chile foi idealizado por um produtor e importador brasileiro, David Giacomini, propriet\u00e1rio da vin\u00edcola chilena La Recova (integrante do projeto), visando apresentar vinhos fora do circuito tradicional das grandes marcas no Brasil. A express\u00e3o \u201cinova\u00e7\u00e3o\u201d vem sendo usada no s\u00e9culo XXI para todos os setores, tornando-se praticamente um jarg\u00e3o da linguagem mercadol\u00f3gica. Inovar significa \u201ctrazer novidade\u201d ou \u201crenovar\u201d. A necessidade de giro num mercado altamente competitivo requer uma simula\u00e7\u00e3o constante de inova\u00e7\u00f5es para despertar a curiosidade do consumidor e dar suporte \u00e0 rotatividade comercial. E nem o vinho (produto com uma aura mais tradicional) escapa disso. Resta efetivamente reconhecer o que traz mudan\u00e7as substanciais ou \u00e9 simplesmente um artif\u00edcio de linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p>O Novo Chile talvez se oponha em alguns aspectos ao que significou \u201cNovo\u201d para a grande renova\u00e7\u00e3o chilena a partir dos anos 1980, quando v\u00e1rios procedimentos enol\u00f3gicos \u201cinovadores\u201d foram incorporados \u00e0s produ\u00e7\u00f5es mais r\u00fasticas e rotineiras, visando elevar o padr\u00e3o de qualidade dos vinhos, a exemplo de outros pa\u00edses do chamado Novo Mundo do Vinho. Apesar de ter contribu\u00eddo definitivamente para um salto qualitativo, esse movimento gerou muitas cr\u00edticas por padronizar pr\u00e1ticas produtivas que tornariam vinhos de regi\u00f5es distintas com o mesmo perfil gustativo. De certo modo, esses vinhos ficaram rotulados como \u201cvinhos tecnol\u00f3gicos\u201d \u2013 tecnologia a\u00ed sugerindo uma aproxima\u00e7\u00e3o com o perfil industrial de produ\u00e7\u00e3o, que passa pelo uso indiscriminado de recursos invasivos a fim de controlar o padr\u00e3o sensorial do vinho. Que fique claro que tecnologia tamb\u00e9m pode agir positivamente, at\u00e9 eliminando o uso de recursos mais invasivos, mas, neste caso, a coloca\u00e7\u00e3o \u00e9 depreciativa.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Novo Chile, o novo se op\u00f5e a esse car\u00e1ter padronizador novo-mundista e reflete outra tend\u00eancia mundial em curso: o resgate da viticultura mais tradicional, de cunho familiar, artesanal, que busca valorizar as origens e particularidades regionais. Em certa medida, o \u201cnovo\u201d \u00e9 mais conservador, se opondo \u00e0 padroniza\u00e7\u00e3o decorrente dos processos tecnol\u00f3gicos inovadores que se globalizaram nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Veja, por exemplo, o Projeto Villalobos Vi\u00f1edo Silvestre, que explora a regi\u00e3o costeira do Vale de Colchagua (Lolol). Eles descobriram e protegeram videiras antigas, que foram plantadas em simbiose com a vegeta\u00e7\u00e3o local, sem muito planejamento, conduzidas em parreirais. Ora, o que aconteceu com muitas \u00e1reas renovadas na d\u00e9cada de 1990 foi justamente o contr\u00e1rio, com a troca radical das condu\u00e7\u00f5es em parreiras para espaldeiras \u2013 \u201ctecnicamente\u201d mais apropriadas ao padr\u00e3o enol\u00f3gico moderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Os vinhos da live de que participei foram um Pinot Noir da Vi\u00f1a Trapi del Bueno, localizada no Valle de Osorno, uma das zonas mais austrais do Chile (Patag\u00f4nia chilena), na regi\u00e3o fria e montanhosa de Los Rios, no sop\u00e9 da inclinada face continental da Cordilheira da Costa. Ali, o solo vulc\u00e2nico profundo tem alto teor de argilas e ferro, o que ir\u00e1 conceder aos vinhos boa mineralidade. Trata-se realmente de um empreendimento ousado, pela ocupa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio pouco explorado, com condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas extremas e ainda pelo resgate de pr\u00e1ticas como pisa a p\u00e9, uso de leveduras selvagens e engarrafamento sem filtra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro vinho foi o Laura Hartwig Edi\u00e7\u00e3o de Fam\u00edlia da Laura Hartwig Wines \u2013 um vinho de peso, corte bordal\u00eas, com r\u00f3tulo que remete \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o familiar. A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 cuidadosa, com uso de barrica de primeiro e segundo uso, visando manter a eleg\u00e2ncia do vinho. Outro produto de destaque da casa \u00e9 o Selecci\u00f3n del Viticultor Petit Verdot 2015, feito de uma cepa habitualmente de corte, que vem ganhando espa\u00e7o nas inova\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica do Sul. Perguntei a eles por que se classificavam como o Novo Chile. E a justificativa est\u00e1 na forma sustent\u00e1vel e respeitosa de tratar o produto, de baixo rendimento e visando qualidade. O \u201cnovo\u201d, neste caso, \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o ao perfil das grandes marcas, que dominam o mercado de vinhos chilenos no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos excelentes vinhos. Mas o projeto n\u00e3o abre m\u00e3o da cita\u00e7\u00e3o das boas avalia\u00e7\u00f5es de cr\u00edticos internacionais, das premia\u00e7\u00f5es \u2013 poderosas armas do marketing vitivin\u00edcola contempor\u00e2neo. Ou seja, h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o de fatores muito bem-vindos, que de fato brindam o universo do vinho hoje com um recuo na estandardiza\u00e7\u00e3o e promessa de boas surpresas e experi\u00eancias. Novo e Velho se combinam e se op\u00f5em ciclicamente em suas dimens\u00f5es simb\u00f3licas, ideol\u00f3gicas, tecnol\u00f3gicas e mercadol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/novochile.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><u>Conhe\u00e7am o projeto pelo site<\/u><\/a>. S\u00e3o oito produtores a serem explorados. H\u00e1 algumas iniciativas interessantes do grupo, como o Wine Academy, que \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o online sobre vinhos do Chile, com fornecimento de certifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Para infs sobre cursos de M\u00edriam Aguiar (Cafa Bordeaux e Wine Masters Class onlines e presenciais):&nbsp;<u><a href=\"mailto:maguiarvinhos@gmail.com?subject=Vinho%20etc\">maguiarvinhos@gmail.com<\/a><\/u>&nbsp;\u2013&nbsp;<u><a href=\"http:\/\/miriamaguiar.com.br\/blog\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">miriamaguiar.com.br\/blog<\/a><\/u>. Siga minhas avalia\u00e7\u00f5es de vinhos pelo Instagram:&nbsp;<u><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/miriamaguiar.vinhos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@miriamaguiar.vinhos<\/a><\/u>&nbsp;e a s\u00e9rie de Podcast Vinhos etc no Spotify e Itunes.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2019, eu escrevi uma s\u00e9rie de artigos sobre as regi\u00f5es vitivin\u00edcolas do Chile para esta coluna, e terminei falando das inova\u00e7\u00f5es em curso, com a explora\u00e7\u00e3o de \u00e1reas situadas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":690,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[61,130,175,271,272,273],"class_list":["post-464","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-monitormercantil","tag-chile","tag-inovacao","tag-novo-chile","tag-vitivinicolas","tag-vitivinicultura","tag-wine-week-2019"],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc.png",768,1024,false],"thumbnail":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc-150x150.png",150,150,true],"medium":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc-225x300.png",225,300,true],"medium_large":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc.png",768,1024,false],"large":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc.png",768,1024,false],"1536x1536":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc.png",768,1024,false],"2048x2048":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc.png",768,1024,false],"purosa_thumbnail":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc-100x75.png",100,75,true],"purosa_medium":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc-370x259.png",370,259,true],"purosa_medium_large":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc-570x399.png",570,399,true],"purosa_featured_large":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc-768x482.png",768,482,true],"purosa_large":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/471cdd1e-675b-4deb-99a1-8049fd06fadc-768x480.png",768,480,true]},"uagb_author_info":{"display_name":"M\u00edriam Aguiar","author_link":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/author\/adm_miriamaguiar\/"},"uagb_comment_info":7,"uagb_excerpt":"Em 2019, eu escrevi uma s\u00e9rie de artigos sobre as regi\u00f5es vitivin\u00edcolas do Chile para esta coluna, e terminei falando das inova\u00e7\u00f5es em curso, com a explora\u00e7\u00e3o de \u00e1reas situadas [&hellip;]","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/464","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=464"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/464\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":691,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/464\/revisions\/691"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}