{"id":1681,"date":"2024-04-26T16:00:00","date_gmt":"2024-04-26T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/?p=1681"},"modified":"2024-04-26T23:21:05","modified_gmt":"2024-04-26T23:21:05","slug":"vinho-e-religiao-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/vinho-e-religiao-parte-i\/","title":{"rendered":"Vinho e religi\u00e3o \u2013 Parte I"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A ancestralidade da bebida teve como grande aliado as doutrinas religiosas que disciplinavam o seu consumo<\/h3>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;<em>Para encontrar a vin\u00edcola mais antiga do mundo, deixe a capital da Arm\u00eania, Yerevan, para tr\u00e1s, \u00e0 sombra do iminente Monte Ararat, e dirija r\u00e1pido por duas horas para sudoeste (\u2026) depois de um tempo, ap\u00f3s uma \u00e1rea quase des\u00e9rtica, um pequeno o\u00e1sis verde se abrir\u00e1 \u00e0 sua frente: um aglomerado de pomares, vinhedos e colmeias, todos animados por um rio estreito e agitado que parece brotar do nada. No centro deste posto agr\u00edcola solit\u00e1rio fica a aldeia de Areni (\u2026) embora a aldeia em si seja t\u00e3o obscura quanto min\u00fascula, o seu nome n\u00e3o o \u00e9.<\/em>&#8220;<\/p>\n<cite><em>A Natural History of Wine \u2013 Ian Tattersall, Rob Desalle<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esses s\u00e3o alguns trechos do livro\u00a0<em>A Natural History of Wine<\/em>\u00a0(Ian Tattersall, Rob Desalle), que fala de uma visita a uma das rotas mais antigas do vinho, na Arm\u00eania. O Monte Ararat \u00e9 aquele presente nos relatos b\u00edblicos, onde a Arca de No\u00e9 teria atracado ap\u00f3s o grande dil\u00favio, trazendo consigo um p\u00e9 de videira que inauguraria uma nova era. A aldeia de Areni produz at\u00e9 hoje um vinho armeno muito tradicional e considerado dentre os melhores nacionais, feito de uma uva que ganhou o mesmo nome.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria do vinho \u00e9 muito antiga e n\u00e3o cessa de mostrar ind\u00edcios de que pode ser muito mais longeva, \u00e0 medida que seja poss\u00edvel reunir provas incontest\u00e1veis de sua exist\u00eancia, o que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples, pois deve envolver dados arqueol\u00f3gicos contundentes, cruzados com outras evid\u00eancias culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, o registro cient\u00edfico mais antigo de produ\u00e7\u00e3o de vinhos data de 8 mil anos atr\u00e1s, na atual Ge\u00f3rgia, regi\u00e3o do Grande C\u00e1ucaso. Mas a uva que, por si s\u00f3, poderia dar origem a um vinho acidentalmente \u2013 uma vez que \u00e9 portadora de um suco diretamente ferment\u00e1vel pela a\u00e7\u00e3o de leveduras naturais \u2013 j\u00e1 habitaria a terra muito tempo antes. As vinhas selvagens surgiram muito antes da humanidade e ainda s\u00e3o representadas na Europa pela&nbsp;<em>Vitis vinifera<\/em>&nbsp;subesp\u00e9cie&nbsp;<em>sylvestris<\/em>, particularmente nas florestas inundadas do Reno.<\/p>\n\n\n\n<p>A viticultura domesticada, entretanto, s\u00f3 foi poss\u00edvel a partir de 10.000 a.C., ou seja, h\u00e1 cerca de 12 mil anos, no per\u00edodo Neol\u00edtico, quando v\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas criaram condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para a pr\u00e1tica da agricultura e cria\u00e7\u00e3o de animais. E a produ\u00e7\u00e3o de vinhos em si demandou o desenvolvimento de t\u00e9cnicas e artefatos para a sua elabora\u00e7\u00e3o, armazenamento e guarda. Demandou tamb\u00e9m condi\u00e7\u00f5es culturais e ideol\u00f3gicas que favorecessem a sua perman\u00eancia e expans\u00e3o. Quanto mais antigas as refer\u00eancias, anteriores ao desenvolvimento da ci\u00eancia em seu arcabou\u00e7o racional, mais a humanidade fundamentou as suas pr\u00e1ticas por outros sistemas de ideias, como a moral e sua \u00edntima conex\u00e3o com as doutrinas religiosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em se tratando, ent\u00e3o, de uma bebida alco\u00f3lica, com efeitos fisiol\u00f3gicos que podem alterar o comportamento, a sua aceita\u00e7\u00e3o social sempre passou por questionamentos e limita\u00e7\u00f5es na liberalidade, tendo sido interditada em alguns lugares e momentos, junto com os demais \u00e1lcoois. O seu pertencimento a rituais culturais e a prescri\u00e7\u00e3o para um consumo moderado s\u00e3o elementos que legitimaram essa liberalidade ao longo do tempo, por muito tempo fundidos com o discurso religioso.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentre as bebidas alco\u00f3licas, o vinho foi a que mais criou uma alian\u00e7a com a religiosidade \u2013 uma alian\u00e7a cultural e espiritual. Nas tradi\u00e7\u00f5es grega e romana, o consumo de quantidades fartas de vinho foi associado aos cultos de Dion\u00edsio (nome grego) e Baco (nome romano), deuses de perfil bem hedonista.<\/p>\n\n\n\n<p>O deus do vinho era uma esp\u00e9cie de semideus, uma vez que filho de Zeus com uma mortal, Semele. De certo modo, essa condi\u00e7\u00e3o \u201cquase-espiritual\u201d do deus era metaforizada pelo efeito do consumo da bebida que representa. Se ingerida com modera\u00e7\u00e3o, era um bom estimulante intelectual, inspirando, por exemplo, os Symposia na Gr\u00e9cia antiga (encontros festivos ap\u00f3s banquetes, regados a vinho com dan\u00e7a, m\u00fasica, recitais e debates). Se ingerido de forma abusiva, poderia provocar descontrole, viol\u00eancia, como sugerem os atos dionis\u00edacos encenados na trag\u00e9dia do dramaturgo grego Eur\u00edpides,&nbsp;<em>As Bacantes<\/em>. A trama fala de uma vingan\u00e7a de Dion\u00edsio, jamais reconhecido pela fam\u00edlia como um deus aut\u00eantico, por meio de um ritual de \u00eaxtase, envolvendo suas ninfas seguidoras, chamadas de bacantes ou m\u00eanades.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto \u00e0 comunidade judaica, o vinho era considerado uma b\u00ean\u00e7\u00e3o dada por Deus, quando consumido com modera\u00e7\u00e3o, tanto que o primeiro ato de No\u00e9, ao desembarcar da arca, foi plantar uma vinha. Seguimos, no pr\u00f3ximo artigo, falando das demais conex\u00f5es entre vinho e religi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ancestralidade da bebida teve como grande aliado as doutrinas religiosas que disciplinavam o seu consumo &#8220;Para encontrar a vin\u00edcola mais antiga do mundo, deixe a capital da Arm\u00eania, Yerevan, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1682,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1681","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-monitormercantil"],"uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5.jpg",1024,682,false],"thumbnail":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5-300x200.jpg",300,200,true],"medium_large":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5-768x512.jpg",768,512,true],"large":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5.jpg",1024,682,false],"1536x1536":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5.jpg",1024,682,false],"2048x2048":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5.jpg",1024,682,false],"purosa_thumbnail":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5-100x75.jpg",100,75,true],"purosa_medium":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5-370x259.jpg",370,259,true],"purosa_medium_large":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5-570x399.jpg",570,399,true],"purosa_featured_large":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5-770x482.jpg",770,482,true],"purosa_large":["https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/artigo_5-1024x480.jpg",1024,480,true]},"uagb_author_info":{"display_name":"miriamaguiar","author_link":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/author\/miriamaguiar\/"},"uagb_comment_info":2,"uagb_excerpt":"A ancestralidade da bebida teve como grande aliado as doutrinas religiosas que disciplinavam o seu consumo &#8220;Para encontrar a vin\u00edcola mais antiga do mundo, deixe a capital da Arm\u00eania, Yerevan, [&hellip;]","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1681","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1681"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1681\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1683,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1681\/revisions\/1683"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1682"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1681"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1681"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1681"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}