{"id":1455,"date":"2023-01-27T18:10:00","date_gmt":"2023-01-27T18:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/?p=1455"},"modified":"2023-01-28T19:57:41","modified_gmt":"2023-01-28T19:57:41","slug":"algumas-notas-sobre-a-diferenca-entre-marca-e-denominacao-de-origem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/algumas-notas-sobre-a-diferenca-entre-marca-e-denominacao-de-origem\/","title":{"rendered":"Algumas notas sobre a diferen\u00e7a entre marca e denomina\u00e7\u00e3o de origem"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Um registro cultural e pol\u00edtico de um saber-fazer desenvolvido coletivamente ao longo do tempo.<\/h3>\n\n\n\n<p>No\u00a0<a href=\"https:\/\/monitormercantil.com.br\/um-brinde-aos-espumantes-da-do-altos-de-pinto-bandeira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00faltimo artigo, informamos sobre a conquista de uma denomina\u00e7\u00e3o de origem (DO)<\/a>\u00a0pelos vinhos espumantes de Pinto Bandeira, e eu comentei como esse conceito ainda \u00e9 pouco compreendido pelo consumidor brasileiro, a despeito da sua import\u00e2ncia, que merecer ser mais esclarecida e divulgada. Lembrei-me de artigo que escrevi para uma revista cient\u00edfica da Uerj h\u00e1 alguns anos, usando a an\u00e1lise semi\u00f3tica para apontar algumas diferen\u00e7as entre marcas comerciais e denomina\u00e7\u00f5es de origem. Achei interessante usar o mesmo vi\u00e9s comparativo, sem o teor acad\u00eamico, para falar um pouco mais sobre o tema nesta coluna.<\/p>\n\n\n\n<p>As marcas comerciais s\u00e3o um recurso praticamente obrigat\u00f3rio para que quaisquer produtos entrem no mercado, pelo simples fato de que elas d\u00e3o nomes aos objetos, servi\u00e7os, entidades, num mercado que foi se alargando progressivamente, de uma regi\u00e3o a outra, de um pa\u00eds a outro, de um continente a outro. \u00c0 medida que o contato intersocial extrapola as fronteiras de um conhecimento relacional limitado (o doce de leite da Dona Maria, a venda do seu Z\u00e9), maior necessidade se faz de se criar e divulgar uma identidade para as coisas. Identidade esta trabalhada por um repert\u00f3rio capaz de justificar o seu nome e favorecer a sua memoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um s\u00edmbolo que ser\u00e1 representativo de um modus operandi do produto\/servi\u00e7o\/institui\u00e7\u00e3o e que busca sintetizar a sua proposta conceitual por um trabalho de associa\u00e7\u00e3o de valores a uma imagem e ao que ela representa. Requer um efetivo trabalho de comunica\u00e7\u00e3o a ser empreendido, de modo a construir no imagin\u00e1rio do p\u00fablico a rela\u00e7\u00e3o entre algo concreto, funcional, utilit\u00e1rio e uma abstra\u00e7\u00e3o eleita como sua identidade simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo do vinho chegou ao s\u00e9culo 20 com not\u00e1vel status de qualifica\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o, tendo como referencial de excel\u00eancia algumas regi\u00f5es consagradas mundialmente. No entanto, nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 19, a praga da&nbsp;<em>Phylloxera vastatrix<\/em>&nbsp;fez um estrago medonho, dizimando vinhedos no mundo todo e provocando escassez de alguns produtos, o que acabou por facilitar falsifica\u00e7\u00f5es. As fraudes acontecem de tempos em tempos neste e em outros universos e foram um dos motivadores para o aprimoramento de um sistema de registro e reconhecimento de uma especialidade produtiva em determinado territ\u00f3rio. Assim evita-se empreendimentos oportunistas de quem n\u00e3o est\u00e1 naquele territ\u00f3rio e n\u00e3o estaria enquadrado nesse sistema de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, em 1935, a Fran\u00e7a inaugurou, o mais complexo sistema de denomina\u00e7\u00f5es de origem controlada (AOCs) at\u00e9 ent\u00e3o criado, aprimorado de outras experi\u00eancias e que teve o campo do vinho como protagonista. Este sistema foi estendido aos demais campos agroalimentares franceses e serve de modelo para a Uni\u00e3o Europeia e para o mundo, como \u00e9 o caso das indica\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses \u201csignos de origem\u201d funcionam como marcas identit\u00e1rias, mas de natureza distinta das marcas mercadol\u00f3gicas. A diferen\u00e7a, que considero fundamental, \u00e9 que ela n\u00e3o vem de uma iniciativa particular de empreendimento, ela \u00e9 um registro cultural e pol\u00edtico de um saber-fazer desenvolvido coletivamente ao longo do tempo e intimamente conectado com as caracter\u00edsticas inatas \u00e0quela regi\u00e3o \u2013 seus contornos geogr\u00e1ficos, suas influ\u00eancias culturais e prefer\u00eancias gustativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de estar pautada tamb\u00e9m por objetivos estrat\u00e9gicos de consolida\u00e7\u00e3o de uma imagem no mercado, ela tem pretens\u00f5es que extrapolam esses interesses, pois esse produto se prop\u00f5e como um nativo mais \u201cleg\u00edtimo\u201d daquele local, uma vez que nasce de seu solo, respira seu clima e representa um estilo cultural constitu\u00eddo ao longo do tempo. Esse car\u00e1ter patrimonial se consolida em boa parte dos casos, com a utiliza\u00e7\u00e3o do nome das regi\u00f5es, vilarejos e locais nos quais ele obrigatoriamente deve ser desenvolvido. A cidade de Bordeaux nunca ser\u00e1 s\u00f3 cidade, bem como o seu vinho nunca poder\u00e1 ser de outro lugar, carrega essa identidade no seu imagin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas denomina\u00e7\u00f5es aportam o nome do local de origem apenas, outras, cuja produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito identificada com alguma caracter\u00edstica do produto, podem fazer uma associa\u00e7\u00e3o entre cepa e regi\u00e3o, como Brunello di Montalcino, em que Brunello \u00e9 o nome da uva Sangiovese ali e Montalcino a cidade da Toscana em que tradicionalmente o vinho \u00e9 produzido.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda algumas \u00e1reas que ficam t\u00e3o identificadas com um tipo de produto que quase ganham o nome do produto. \u00c9 mais raro, mas este \u00e9 o caso da AOC Muscadet, da regi\u00e3o chamada Nantais (de Nantes), no Vale do Loire, Fran\u00e7a. A cepa Melon de Bourgogne, apesar de n\u00e3o origin\u00e1ria dali, adaptou-se muito bem a essa \u00e1rea pr\u00f3xima ao oceano Atl\u00e2ntico, dando origem a um vinho muito identificado com o frescor e a salinidade mar\u00edtima. Ganhou um nome pr\u00f3prio: Muscadet uva e Muscadet AOC. Boa parte dos produtos, entretanto, v\u00e3o associar a Muscadet a locais espec\u00edficos nos quais s\u00e3o produzidos, como, por exemplo, AOC Muscadet S\u00e8vre et Maine \u2013 leia-se: o vinho estilo Muscadet, feito da uva Muscadet, produzidos numa \u00e1rea atravessada pelos rios S\u00e8vre Nantaise e Maine.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Visite a p\u00e1gina de M\u00edriam Aguiar no Instagram e saiba mais sobre CURSOS DE VINHOS (nacionais e internacionais) e Aulas Tem\u00e1ticas: @miriamaguiar.vinhos<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um registro cultural e pol\u00edtico de um saber-fazer desenvolvido coletivamente ao longo do tempo. 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