{"id":1415,"date":"2022-11-18T18:18:00","date_gmt":"2022-11-18T18:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/?p=1415"},"modified":"2022-11-26T13:23:12","modified_gmt":"2022-11-26T13:23:12","slug":"a-tannat-e-a-representatividade-enogastronomica-do-gaucho-uruguayo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/a-tannat-e-a-representatividade-enogastronomica-do-gaucho-uruguayo\/","title":{"rendered":"A Tannat e a representatividade enogastron\u00f4mica do \u2018gaucho uruguayo\u2019"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Em nome da compet\u00eancia para trabalhar uma cepa dif\u00edcil, a identidade do terroir uruguaio se afirmou.<\/h3>\n\n\n\n<p>Dando sequ\u00eancia \u00e0 an\u00e1lise da evolu\u00e7\u00e3o da vitivinicultura uruguaia, nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20, a exemplo de outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, o Uruguai teve que promover reformas no seu processo de produ\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que o mercado mundial foi se reorganizando em blocos continentais, com pol\u00edticas que favoreciam as trocas comerciais e suas oportunidades, mas que colocavam em xeque a compet\u00eancia de vinhos de grande volume e baixa qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>As reformas empreendidas nos processos de produ\u00e7\u00e3o de vinhos ocorreram em n\u00edvel mundial e cada vez mais r\u00e1pido \u00e0 medida que este mercado se globalizou e se tornou mais competitivo. Na Am\u00e9rica do Sul, os protagonismos do Chile e da Argentina serviram de exemplo para pa\u00edses como o Brasil e o Uruguai, mas tamb\u00e9m pressionaram as produ\u00e7\u00f5es vizinhas a empreenderem r\u00e1pidas mudan\u00e7as, a fim de n\u00e3o perderem seus mercados dom\u00e9sticos, especialmente com a maior oferta de vinhos argentinos e chilenos, facilitadas pelo Mercosul.<\/p>\n\n\n\n<p>A reconvers\u00e3o vitivin\u00edcola, como \u00e9 denominado este processo, teve in\u00edcio na d\u00e9cada de 1980 no Uruguai e envolveu mudan\u00e7as nas castas utilizadas, nos m\u00e9todos de condu\u00e7\u00e3o dos vinhedos e nas tecnologias de produ\u00e7\u00e3o. Isso exigiu investimentos e reduziu, desde ent\u00e3o, o n\u00famero de produtores. Algumas bodegas mais longevas, descendentes dos imigrantes inaugurais, come\u00e7aram seus neg\u00f3cios na primeira metade do s\u00e9culo 20 e foram adaptando suas produ\u00e7\u00f5es. Outras, fundadas no per\u00edodo da transforma\u00e7\u00e3o, tiveram o apoio de alguns personagens fundamentais, como eu j\u00e1 dizia no \u00faltimo artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles foi Reinaldo de Lucca, propriet\u00e1rio da Bodega De Lucca (Canelones), que foi estudar em Montpellier (Fran\u00e7a) e importou melhores clones da Tannat, fundando um viveiro de uvas, que serviu de reservat\u00f3rio para muitos produtores. Reinaldo continua sendo uma importante refer\u00eancia em enologia no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra personalidade \u00e9 Francisco Carrau, PhD em Qu\u00edmica, especialista no estudo das leveduras para a fermenta\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica e professor de Enologia da Escola de Vitivinicultura Tomas Berreta. \u00c9 muito comum conversarmos com en\u00f3logos propriet\u00e1rios de vin\u00edcolas uruguaias que foram alunos dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancia de empreendedorismo foi Fernando Deicas, que adquiriu o Establecimiento Juanic\u00f3 em 1976 e fundou um dos mais bem-sucedidos neg\u00f3cios vitivin\u00edcolas do pa\u00eds \u2013 desde a linha mais simples, Don Pascual, ao \u00edcone de qualidade premium, Preludio.<\/p>\n\n\n\n<p>Fim dos anos 1990, in\u00edcio dos anos 2000, o mundo come\u00e7ou a conhecer vinhos premium uruguaios desses e de outros produtores, como das bodegas Pizzorno, Pisano, Toscanini, Marichal, Gimenez. Inicialmente, Uruguai significava Tannat. A assinatura Tannat, de certo modo, encontrava um lugar ainda pouco explorado no mundo dos vinhos para o pa\u00eds. Al\u00e9m disso, Tannat, sendo uma cepa cuja marca mais not\u00e1vel \u00e9 o alto teor de taninos, de certo modo remetia \u00e0 ideia do aut\u00eantico homem dos pampas \u2013 forte, r\u00fastico, carn\u00edvoro por excel\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os irm\u00e3os Pisano, liderados pelo carism\u00e1tico Daniel Pisano, exploraram e ainda exploram muito bem essa ideia de uma produ\u00e7\u00e3o que carrega uma identidade pr\u00f3pria, proveniente dessa fus\u00e3o entre as origens europeias reencarnadas em territ\u00f3rio latino-americano.<\/p>\n\n\n\n<p>Escutei em um podcast de um sommelier uruguaio (e achei interessante) a vers\u00e3o de que eles teriam mais toler\u00e2ncia ao amargor dos taninos pelo alto consumo de chimarr\u00e3o. Se, por um lado, o Tannat se funde com a imagem do&nbsp;<em>gaucho uruguayo<\/em>, a ideia que foi trabalhada em rela\u00e7\u00e3o ao Tannat nacional era de que o vinho dali seria a melhor elabora\u00e7\u00e3o da cepa, uma vez que, em sua origem (Madiran, Fran\u00e7a), o vinho era muito t\u00e2nico e dif\u00edcil de ser consumido.<\/p>\n\n\n\n<p>Vers\u00f5es \u00e0 parte, o fato \u00e9 que os avan\u00e7os da enologia mostram que, para al\u00e9m das quest\u00f5es clim\u00e1ticas, que tornam a Tannat uma boa op\u00e7\u00e3o para essas regi\u00f5es, hoje j\u00e1 se sabe trabalhar melhor a cepa, de forma a gerar vinhos prontos mais jovens, com taninos de boa qualidade e capacidade de expressar frutas, aromas e eleg\u00e2ncia \u2013 seja no Uruguai ou na Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A despeito dessa constata\u00e7\u00e3o, a Tannat d\u00e1 uma estrutura mais pungente aos vinhos, isso \u00e9 fato, e reduzir uma vinicultura \u00e0 sua imagem poderia ser um fator limitador, num mundo que se pauta pela multiplica\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias. As novas gera\u00e7\u00f5es de vinhos que come\u00e7aram a brotar de v\u00e1rios empreendimentos nascidos a partir dos anos 2000 e que tamb\u00e9m influenciam vin\u00edcolas mais tradicionais foram em busca de outras cepas para ampliar a carta de vinhos uruguaia.<\/p>\n\n\n\n<p>O Tannat \u00e9 carro-chefe sempre, mas, para a alegria de pessoas como eu, que gosta de frescor e finesse nos vinhos, nem s\u00f3 de mate e carne vive o uruguaio, mas da brisa fresca do mar, que combina com outras ta\u00e7as. Falaremos das novas gera\u00e7\u00f5es no pr\u00f3ximo artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em nome da compet\u00eancia para trabalhar uma cepa dif\u00edcil, a identidade do terroir uruguaio se afirmou. 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