{"id":103,"date":"2019-09-27T18:53:06","date_gmt":"2019-09-27T18:53:06","guid":{"rendered":"http:\/\/miriamaguiar.com.br\/blog\/?p=103"},"modified":"2021-02-28T22:12:21","modified_gmt":"2021-02-28T22:12:21","slug":"the-new-black-wine-a-reinterpretacao-da-malbec-em-terroirs-distintos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.miriamaguiar.com.br\/blog\/the-new-black-wine-a-reinterpretacao-da-malbec-em-terroirs-distintos\/","title":{"rendered":"The New Black Wine, a reinterpreta\u00e7\u00e3o da Malbec em terroirs distintos"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Expressividade do solo est\u00e1 na filosofia dos bons vinhos franceses, mas regi\u00e3o vem se beneficiando da renova\u00e7\u00e3o enol\u00f3gica &#8216;novo-mundista&#8217;.<\/h2>\n\n\n\n<p>Talvez se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos na Am\u00e9rica Latina, fizesse menos sentido a hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o de vinhos de uma regi\u00e3o no vale do Rio Lot, sudoeste da Fran\u00e7a, cujo vinho emblem\u00e1tico era feito da uva Auxerrois e apelidado de Vin Noir (vinho negro). No centro dessa regi\u00e3o, est\u00e1 a cidade de Cahors, capital do Departamento do Lot, ex-Prov\u00edncia de Quercy, constru\u00edda no s\u00e9c. XIV, com monumentos que atestam seu rico passado hist\u00f3rico, dentre eles, a ponte fortificada Pont Valentr\u00e9, tombada como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico mundial pela Unesco.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade de Cahors empresta o nome \u00e0 Denomina\u00e7\u00e3o de Origem do vinho franc\u00eas da uva Malbec, localmente mais chamada de Auxerrois e Cot. A regi\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 rica em tipicidades gastron\u00f4micas, dentre as quais est\u00e3o o Cordeiro de Quercy, o queijo de cabra de Rocamadour, s confits de canard (e outras iguarias do pato), foie gras, trufa negra e nozes de P\u00e9rigord.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da protagonista Malbec, da qual se exige a m\u00ednima utiliza\u00e7\u00e3o de 70% para o direito \u00e0 rotulagem como AOC Cahors, s\u00e3o permitidas as cepas Tannat e Merlot nos cortes, a primeira mais afinada com a robustez do vinho de outrora e predominante em outra AOC do Sudoeste franc\u00eas, o Madiran, e a segunda, cada vez mais utilizada para amaciar os cortes dos vinhos modernos. Cahors est\u00e1 a cerca de 250km de Bordeaux e, no passado, j\u00e1 gozou de status semelhante aos vinhos bordaleses, com amplo acesso ao mercado ingl\u00eas. Ap\u00f3s a Guerra dos 100 anos, os comerciantes de Bordeaux proibiram a venda de seus vinhos \u00e0 Inglaterra, assim como fizeram com vinhos de regi\u00f5es pr\u00f3ximas, mas h\u00e1 n\u00edtidas semelhan\u00e7as entre eles, a come\u00e7ar pelas cepas \u2013 na pr\u00e1tica, a Malbec pode ser utilizada nos cortes bordaleses em reduzida escala.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros grandes consumidores do vinho de Cahors foram os russos, e por tr\u00e1s desse fato h\u00e1 uma hist\u00f3ria curiosa, aparentemente lend\u00e1ria, mas que merece cr\u00e9dito. A \u00e9poca era in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, quando comerciantes russos come\u00e7aram a importar vinhos de Cahors via Oceano Atl\u00e2ntico e mar B\u00e1ltico. Um nobre entusiasta de vinhos, o Czar Pierre I, passa a consumi-lo assiduamente, quando descobre ser este um precioso medicamento para suas \u00falceras estomacais. O vinho se populariza e se torna o vinho de missa oficial das igrejas ortodoxas. Um detalhe: o vinho em quest\u00e3o era um vinho doce obtido por cozimento do mosto, com acr\u00e9scimo de \u00e1lcool e a\u00e7\u00facar, para aguentar as longas viagens at\u00e9 San Petesburgo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei se esses \u201cacr\u00e9scimos\u201d contribu\u00edram para a m\u00e1 fama do Vinho Negro de Cahors, mas creio que seja uma composi\u00e7\u00e3o de fatores: a concentra\u00e7\u00e3o e adstring\u00eancia da cepa no terroir franc\u00eas, o uso de t\u00e9cnicas muito rudimentares que visavam mais a sobreviv\u00eancia do vinho do que a sua qualidade, a concorr\u00eancia com regi\u00f5es de maior peso politico econ\u00f4mico, que muitas vezes contribui para a acomoda\u00e7\u00e3o do mercado visando o abastecimento de vinhos do dia a dia. Isso j\u00e1 aconteceu com outras regi\u00f5es do sul da Fran\u00e7a e v\u00e1rias da Europa. Mas \u00e9 fato que a t\u00e9cnica de aquecimento de parte das cepas ou dos mostos de uvas era utilizada desde a Idade M\u00e9dia, segundo informa\u00e7\u00e3o local, e isso certamente contribu\u00eda para a alta extra\u00e7\u00e3o de cor e taninos que tornavam o vinho r\u00fastico demais.<\/p>\n\n\n\n<p>A t\u00edtulo de resgatar esse s\u00edmbolo hist\u00f3rico de forma sofisticada, a vin\u00edcola Clos Triguedina criou o vinho \u201cThe New Black Wine\u201d, produzido a partir de 100% de uvas Malbec que passam uma noite em forno, normalmente usado para produ\u00e7\u00e3o de ameixas secas. Em seguida, passa-se \u00e0 vinifica\u00e7\u00e3o e envelhecimento por 12 meses em barricas de carvalho. O resultado \u00e9 um vinho riqu\u00edssimo, com aromas de frutas negras, especiarias e torrefa\u00e7\u00e3o, que lembra um grande Porto ou Amarone, com taninos muito aveludados.<\/p>\n\n\n\n<p>Cahors hoje passa por uma vis\u00edvel moderniza\u00e7\u00e3o, que inclui, no \u00e2mbito do tradicional vinho tinto, a suaviza\u00e7\u00e3o pelo corte, a ado\u00e7\u00e3o de novas t\u00e9cnicas junto aos vinhedos (limita\u00e7\u00e3o de volume por ha\/ multiplica\u00e7\u00e3o das podas visando otimiza\u00e7\u00e3o da matura\u00e7\u00e3o) e \u00e0 vinifica\u00e7\u00e3o (aparelhamento da cantina para maior precis\u00e3o dos processos\/ uso de barricas novas) e a diversifica\u00e7\u00e3o do perfil de produ\u00e7\u00e3o (vinhos para consumo jovem\/de diferentes solos\/licorosos). O que se atesta muito hoje na regi\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o do portf\u00f3lio com a inclus\u00e3o de vinhos de uvas como Viognier, Chenin, Chardonnay, Sauvignon e S\u00e9millon. Neste caso, os r\u00f3tulos levam a classifica\u00e7\u00e3o IGP, que d\u00e1 mais liberdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o dos cortes.<\/p>\n\n\n\n<p>Perguntei a alguns produtores se o destaque da Malbec no hemisf\u00e9rio sul acabou estimulando o reconhecimento da regi\u00e3o de origem da cepa, e eles prontamente disseram que sim, embora assegurem a exist\u00eancia das diferen\u00e7as. A express\u00e3o que mais justifica e sintetiza essa avalia\u00e7\u00e3o por parte dos franceses \u00e9 a seguinte: \u201cMalbec du Soil et Malbec du Solei\u201d \u2013 ou seja, o Malbec franc\u00eas \u00e9 marcado pela influ\u00eancia do SOLO e o argentino do SOL. \u00c9 fato que a expressividade do solo est\u00e1 na filosofia dos bons vinhos franceses, mas podemos tamb\u00e9m dizer que a regi\u00e3o vem se beneficiando da renova\u00e7\u00e3o enol\u00f3gica \u201cnovo-mundista\u201d. H\u00e1 produ\u00e7\u00f5es que preservam o car\u00e1ter menos intervencionista e que pedem ao consumidor maior tempo de espera, bem recompensados. Se h\u00e1 semelhan\u00e7a na intensidade da cor e estrutura dos Malbecs das duas nacionalidades, \u00e9 fato tamb\u00e9m que cruzamos com mendocinos mais \u201ccalientes\u201d, arom\u00e1ticos e macios na juventude do que o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Seguem alguns r\u00f3tulos que me encantaram:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>G.C 2015 Chateau Du C\u00e8dre (dif\u00edcil escolher um vinho mal elaborado por essa vin\u00edcola, que \u00e9 certificada BIO, mas este vinho \u00e9 absolutamente irretoc\u00e1vel)<\/p>\n\n\n\n<p>Extra Libre \u2013 Le C\u00e8dre 2016 (sem sulfito)<\/p>\n\n\n\n<p>Probus Clos Triguedina 2008<\/p>\n\n\n\n<p>The New Black Wine Clos Triguedina<\/p>\n\n\n\n<p>Ch\u00e2teau De Haute Serre Icone Wow 2009<\/p>\n\n\n\n<p>Chenin De Mercu\u00e8s \u2013 Ch\u00e2teau De Mercu\u00e8s 2015<\/p>\n\n\n\n<p><em>Turmas abertas para cursos da Cafa Wine School, de Bordeaux, ministrados por Miriam Aguiar, visite <u><a href=\"http:\/\/miriamaguiar.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">miriamaguiar.com.br<\/a><\/u> \/ Instagram: <u><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/miriamaguiar.vinhos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@miriamaguiar.vinhos<\/a><\/u><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Expressividade do solo est\u00e1 na filosofia dos bons vinhos franceses, mas regi\u00e3o vem se beneficiando da renova\u00e7\u00e3o enol\u00f3gica &#8216;novo-mundista&#8217;. 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