Vinhos de regiões pouco familiares atraem cada vez mais consumidores

Se as transformações geracionais em um dado modelo de produção se davam a cada era, milênio, século, hoje tudo é (ou nos parece) mais veloz, principalmente em relação àquilo que depende de tecnologia e de modelos processuais. A novidade se difunde rapidamente, provocando mudanças em toda a linha de produção de um dado mercado e fazendo de cada ciclo quase um modismo. O vinho, produto milenar de mais de 8.000 anos de história, que já passou por várias mudanças envolvendo distintas regiões, culturas, métodos de produção, estilos de consumo, entre outros, vem sofrendo também transformações muito mais aceleradas a partir da segunda metade do século 20.

Um dos processos mais significativos que ocorre desde então foi o franco progresso das produções do chamado Novo Mundo do Vinho, que tiveram a vitivinicultura introduzida pelos colonizadores europeus. Hoje, a produção desses países já ganha outros matizes, além da simples condição de ter conseguido alcançar níveis de qualidade equiparáveis ao padrão médio europeu. Um dos melhores exemplos é a criação de sistemas exclusivos de produção, adaptados a realidades geoclimáticas específicas, como é o caso da dupla poda no Brasil. Os países dos trópicos, muitas vezes vistos como exóticos pelos europeus (na França, frutas tropicais como abacaxi e banana são chamadas de “frutas exóticas”), já fazem parte do mapa do vinho.

Isso de fato é mais recente e faz parte das inovações, mas a outra “novidade” é a crescente entrada de vinhos da Europa Oriental, do Oriente Médio e, em breve, de vinhos asiáticos nas prateleiras mundiais. Ao contrário do que se possa imaginar, boa parte desses vinhos “exóticos” ao olhar dos consumidores do mundo ocidental não tem nada de novo existencialmente, além do fato de se reinventarem ao longo do tempo. Nessas áreas, a partir da Europa Oriental, seguindo rumo ao Oriente, entre os mares Negro e Cáspio, encontram-se os traços mais remotos da origem do vinho. O vinho, em realidade, lhes é muito familiar.

vinho rótulo exótico

Mas o nosso distanciamento em relação a essas culturas torna tudo que não é Ocidente exótico. Essa cisão foi bastante aprofundada pelo período da Guerra Fria e por sua visão binária, quase dicotômica da sociedade. Mas, para quem estava ali, produzindo e consumindo o próprio vinho, um pouco de tudo já se passou: fizeram parte de vários impérios, do bloco socialista e, mais recentemente, da União Europeia. Cada contexto colaborou para dar contornos diferenciados à própria produção e ao mercado, com períodos mais ou menos favoráveis ao consumo de vinhos.

Geórgia, Armênia, Turquia, Líbano, Bulgária, Romênia, Moldávia — todos países de produção muito antiga, alguns deles essencialmente voltados à vitivinicultura. Até mesmo a Grécia, que é mais associada à cultura ocidental, embora esteja na faixa meridional e oriental do continente, quando se trata de vinho tem produtos muito estranhos ao nosso olhar e paladar. Só nas últimas décadas Grécia e países da Europa Central, como Áustria e Hungria, começaram a fazer parte do repertório dos importadores, seguidos pelos chamados países do Leste Europeu. No Brasil, especialmente a partir do período da pandemia, houve uma intensificação no comércio internacional envolvendo essas regiões. E eles atraem muitos consumidores pela sua raridade e estranhamento.

O estranhamento é provocado por um pacote de ingredientes: línguas pouco familiares, nomes de uvas jamais lidas (que nem arriscamos pronunciar), design de alguns rótulos que exploram esse estranhamento imaginário. E no paladar? Esses vinhos são tão exóticos assim?

Tenho dado muitas aulas a respeito desses universos e participado de muitas degustações. De modo geral, com exceção dos chamados “vinhos laranja”, que são vinhos brancos com maceração pelicular, ou vinhos de baixíssima intervenção, que remontam a práticas bem antigas, eu diria que, num mundo global, a estandardização das tendências é quase automática.

Acho, no entanto, que um ponto essencial de enriquecimento do repertório enológico é que ele faz vir à tona um amplo catálogo de uvas nativas, por sua vez muito identificadas com cada um desses territórios. O vinho, nesses casos, pode revelar um estilo que não é sinalizado apenas pela variedade de uva, mas por sua condição e inequívoca qualidade associada às características daquele território, o que nos remete à clássica noção de terroir. Creio que esses são os caldos exóticos mais surpreendentes, que serão elencados no próximo artigo.

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