Conheça suas principais variedades de uvas nativas
Apresento aqui as uvas mais representativas de parte dos vinhos que chamei de “exóticos fundadores” no último artigo, isto é, vinhos provenientes de países mais estranhos à cultura ocidental, com trajetória muito longeva de produção vitivinícola. Hoje, eles chegam ao nosso mercado, provocando grande curiosidade, e um dos motivos para o frenesi é a possibilidade de explorar novos sabores a partir do que as suas uvas nativas milenares podem revelar.
Para o Brasil, muita coisa em relação ao vinho é novidade; não obstante, o repertório de uvas e estilos de vinhos de países tão afastados quanto a Austrália é bem próximo ao que já se conhece da Europa e das Américas, pois há um alinhamento com o que se experimenta na cultura ocidental. Já esses países que considerei mais distanciados de nossa cultura guardam ainda esse exotismo patrimonial em sua ampelografia, que deve ser explorado e pode nos emocionar.
Começando pelos mais antigos: hoje, a Geórgia é considerada o berço da vitivinicultura mundial. Ali foram encontrados vestígios de vinhos em vasos que remontam a 6000 a.C. Desde essa descoberta, a sua produção vem sendo homenageada e, de certo modo, replicada mundialmente para alguns vinhos especiais fermentados em recipientes que lembram os antigos vasos de barro ovais georgianos, os “qvevris”.
Isso parece ter reforçado a exportação de vinhos da Geórgia, especialmente dos vinhos laranjas — vinhos brancos que ficam em contato, por algum tempo, com as películas, o que lhes altera a cor, lhes traz certa austeridade tânica e aromas de frutas secas e especiarias. Qualquer uva branca, em tese, poderia gerar um vinho laranja, mas há aquelas mais identificadas e, no caso da Geórgia, é quase unanimidade a presença da Rkatsiteli: uma uva de acidez marcante, porém contida aromaticamente, que ganha mais complexidade com o trabalho em ânforas e qvevris.
Quando se trata de tintos, boa parte dos vinhos georgianos é produzida com a Saperavi, única tinta nativa do país e tintureira (suco colorido), com ótima resistência ao frio. São vinhos concentrados em cor, taninos, corpo e com alta acidez, que possuem aromas e sabores de frutas pretas, ganhando novos matizes com o tempo em garrafa.
Outro país de viticultura antiga, do qual pouco se escuta e, ainda, com reduzidíssimo acesso aos rótulos no Brasil, é a Armênia. Vizinha da Geórgia, na montanhosa região do Cáucaso, entre 2007 e 2008 arqueólogos encontraram uma gruta de 6.100 anos com vestígios calcificados de uma prensa e uma cuba de barro contendo restos de uvas prensadas. Trata-se da Areni 1, considerada o registro mais antigo de vinícola do mundo.
Há registros de cerca de 850 variedades de uvas na Armênia, mas apenas 40 castas nativas ainda são utilizadas — muitas, voltadas à produção de destilados. Em termos de vinhos, predominam os brancos, com destaque para a Voskehat, uva mais popular do país, rica em açúcar e capaz de gerar vinhos secos, de corpo médio e até fortificados.
Apesar do predomínio de brancas, a mais prestigiada é a tinta Areni Noir, que, no geral, faz vinhos de corpo médio a encorpados, com bom equilíbrio entre acidez e taninos. Bem trabalhados, os vinhos de Areni Noir podem apresentar um perfil fresco e mineral.
O terceiro país que escolhi nessa linha do tempo é a Turquia, muito mais identificada com a viticultura do que com a vinicultura, por questões religiosas muito antigas e contínuas. A Turquia é um país transcontinental extenso, localizado ao sul do Mar Negro, entre a Ásia e a Europa Oriental.
Todos se espantam ao saber que o país tem a quinta maior superfície de uvas do mundo, mas a surpresa ocorre também quando se constata que a produção de vinhos fica em 26º lugar. Boa parte dessas uvas tem como destino a alimentação ou a produção de sucos, embora haja registros de produção de vinhos desde 5000 a.C.
Mas a produção vem passando por reformas importantes e, embora apenas 34 das mais de 1.200 variedades de uvas existentes sejam destinadas à produção de vinhos, 22 delas são nativas. Kalecik Karasi é uma variedade tinta, uma das uvas mais cultivadas no país, especialmente na área central da Anatólia. Mistura popularidade com boas expressões em qualidade, podendo produzir vinhos tintos elegantes, com sabores de morango, cereja, pimenta-preta e cravo.
Dessa mesma área, com menos popularidade, mas maior complexidade, está a Boğazkere — uva tinta tânica, com boa acidez, que faz vinhos que, com a idade, lembram a italiana Nebbiolo.
