Península no extremo norte da ilha da Córsega é lugar predileto da sangiovese corsa e excelente VDN da França.

Seguindo a série sobre vinhos da Córsega, neste artigo, relato visitas a uma das áreas de maior destaque em sua produção, que é no extremo norte da ilha, na península chamada de Cap Corse. Ali se encontra a AOC Patrimonio, primeira denominação autorizada na ilha (1968) e que tem o status de Cru de Corse, juntamente com a AOC Ajaccio. Patrimonio fica nas encostas íngremes, a sudoeste da Cap Corse, bem próximo do mar. Ali há uma área de concentração de solos argilo-calcários, apesar da base de xisto predominante.

As parcelas ricas em calcário da AOC Patrimonio fazem desta área o local predileto de adaptação da variedade Niellucciu (Sangiovese corsa). Como explica o enólogo do Domaine Leccia, Lizandru Leccia, o calcário apresenta grãos muito finos, como poeira. A argila, que se associa ao calcário, normalmente absorve muita água, formando um reservatório que é drenado pelo calcário. No verão, quando o clima é quente e seco, isso será restituído à planta. Irrigação é proibida e não se faz necessária.

Este perfil de solo acaba concedendo mais cremosidade aos vinhos. Mas é preciso trabalhá-lo, especialmente em áreas muito inclinadas, porque existem camadas diferenciadas, onde as rochas se misturam e se sobrepõem.

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Vê-se o trabalho árduo dessa produção. Mas os vinhos agradecem: o Domaine Leccia apresenta um conjunto de surpreendente qualidade, dos brancos aos tintos aos licorosos. Trata-se de uma vinícola familiar com viticultura biodinâmica, hoje dirigida por Lizandru Leccia, um jovem enólogo que demonstra muito conhecimento e evidencia seu talento na qualidade dos vinhos.

Leccia significa “carvalho” na língua corsa. Visitei também o Domaine Yves Leccia, que leva o nome do seu criador, também da família Leccia. Yves Leccia é um dos símbolos da produção corsa, por sua participação ativa na transformação dessa indústria vitivinícola. Obteve seu diploma em enologia em 1980 e retornou à Córsega para assumir a produção familiar e cargos importantes em instituições para controle e promoção da produção regional. Desde 2004, criou a sua própria vinícola, de produção orgânica, que administra junto com a esposa, Sandrine, de família de vitivinicultores da Alsácia.

Uva Nielluccio, na Cap Corse, Córsega
Uva Niellucciu (foto de Míriam Aguiar)

Corremos alguns vinhedos e há várias parcelas em que a presença da base de xisto é bem evidente e valoriza a maturação das uvas. A produção dessa área, assim como em toda ilha, também tem como principal variedade branca a Vermentinu, mas é destaque quando se fala em territórios para a tinta Niellucciu.

No entanto, ali também encontramos cada vez mais a presença da tinta Sciaccarellu e de outras variedades que vêm sendo resgatadas, como a branca Biancu Gentile. Um dos tintos que mais gostei se chama O Bà! Red, um corte de 1/3 Minustellu, 1/3 Niellucciu e 1/3 Grenache. Uma linha clássica de boa reputação no mercado é o E-Croce Blanc (100% Vermentino) e o E-Croce Rouge (90% Niellucciu e 10% Grenache).

Produção de vinho com uva Muscat, na Cap Corse, Córsega
Produção de vinho com uva Muscat (foto de Míriam Aguiar)

A outra IG do norte, de grande representatividade para os vinhos corsas, é a Muscat de Cap Corse, responsável pela produção de um dos VDN (Vin Doux Naturel) da França, produzidos com a variedade Muscat à Petit Grains na parte norte da península Cap Corse.

Trata-se de uma joia da região, apesar de que hoje o mercado consome menos vinhos doces. São produzidos numa versão mais fresca, com maturação em tanques inox e outra oxidativa, que fica exposta à luminosidade e é comercializada em grandes embalagens de vidro, servidas diretamente pelos restaurantes, podendo ser complementadas periodicamente. Esses vinhos adornam a paisagem da península, um tesouro a ser preservado e conhecido.

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