São três castas principais e há um resgate de nativas em curso
A ilha da Beleza, ontem italiana, hoje francesa, tem língua própria e uma identidade que o contorno das águas parece preservar. É assim que nos parece, em sua soma de cultura, paisagem, gastronomia e vinhos. Entre as faces italiana e francesa, a primeira ressoa mais forte, mas o território e o que nele se produz adquirem um sotaque inegavelmente corso.
Para as nossas proporções, a Córsega é pequena: são apenas 182 km de norte a sul e menos de 84 km de leste a oeste. E, em vinhedos, a superfície é bem menor: em torno de 6 mil ha, distribuídos perto da costa, formando um anel ao redor da ilha. A Córsega é mar, mas é muito mais montanha e, em seu interior, é difícil plantar. Cerca de 90% da ilha é formada por montanhas muito altas, cujo pico chega a 2.700 m, no Monte Sino. A altitude média dos vinhedos é de 300m, não muito longe do mar.

Fundada pelos gregos, sua viticultura foi iniciada em 570 a.C., antes mesmo de eles chegarem a Marselha, considerada o marco inicial francês. Porém, naquele período, o território não era francês, o que só veio a acontecer bem depois. Os romanos vieram após os gregos e ajudaram a desenvolver a produção de vinhos, até que a ilha foi aterrorizada por piratas sarracenos e mouros, o que levou ao abandono da costa e de outros negócios importantes.
Entre os séculos 8 e 18, a Córsega foi governada por Gênova, que manteve o monopólio sobre todas as suas exportações de vinho. Filoxera, guerras e um período de produção em volume explicam, em parte, por que a produção de qualidade ainda é pouco conhecida e relativamente recente.
Primeiro, houve um trabalho de nivelamento ao status da produção francesa, com o estabelecimento das denominações de origem. Mais recentemente, há um movimento arrojado de produtores visando à criação de uma identidade mais genuína de seus vinhos, que inclui o resgate de cepas antigas e a utilização de métodos pouco intervencionistas para a expressão do terroir. Vinhos orgânicos e biodinâmicos se multiplicam pouco a pouco.
De modo geral, o clima da Córsega é mediterrâneo, com invernos moderados e verões bem calorosos, com estação seca. A proximidade do mar leva contínuas correntes de vento para o interior dos vinhedos, e a altitude diminui o efeito da temperatura alta diurna no verão. A amplitude térmica modera o ritmo do amadurecimento, e os vinhos agradecem.
A diversidade geológica é um grande valor, que ajuda na nutrição das vinhas e na distinta expressão sub-regional. É um território que resulta, em parte, dos movimentos de colisão e elevação alpina e, em parte, da decomposição da base granítica pré-alpina. Solos de várias épocas se fundiram ao longo do tempo e se sobrepõem, criando uma notável complexidade geológica. Apesar de se apresentarem mistos em profundidades, há áreas com claro predomínio de solos graníticos (sul e oeste da ilha), de formações xistosas (norte – Cap Corse), do dueto argilo-calcário (AOC Patrimonio e partes de Bonifacio) e do solo pedregoso de aluviões.
Há três cepas principais, duas tintas e uma branca. A Niellucciu (Sangiovese corsa) é a tinta majoritária e foi plantada ali no período em que a cidade-estado italiana de Pisa conquistou a Córsega. A segunda tinta mais importante, em franco crescimento, é a Sciaccarellu (Mammolo), apelidada de Pinot Noir selvagem da Córsega. Ambas são vinificadas como varietais ou em cortes, que podem incluir outras tintas mais internacionais, como a Grenache, Syrah e Cinsault, ou cepas antigas em crescente revitalização: Biancu Gentile, Genovèse (brancas), Carcajolo Nero, Minustellu (tintas), entre outras.
A branca mais plantada e completamente consagrada em todas as sub-regiões é a Vermentino: cepa originária do Peloponeso, Grécia, que se espalhou pela região mediterrânea, mas que tem brilho particular na Córsega. Boa parte dos vinhos brancos é feita 100% ou em parte com a Vermentino, uma variedade muito rica aromaticamente, com bom equilíbrio álcool/acidez, que pode ser bebida jovem, mas ganha requintes de complexidade com a idade.
Seguiremos abordando os vinhedos da Córsega nos próximos artigos.