Navegar é preciso para degustar outros universos: a exuberante Córsega, ilha da França com língua própria e forte ligação com a Itália.

Era um desejo meu conhecer a Córsega (e seus vinhos, claro). Conhecer a França não significa conhecer vinhos de toda a França, pois, via de regra, é difícil beber vinhos de outra região francesa ou europeia fora de seus limites – ainda que as regiões sejam do mesmo país de origem. A exceção vale para vinhos das regiões mais famosas, como Borgonha, Bordeaux e Champagne, que sempre contam com um lugar na prateleira de qualquer área.

O fato de não estar no continente francês parece dificultar mais ainda o acesso aos vinhos corsas. Mesmo assim, ao longo dos anos, consegui visitar alguns wine bars em Paris e em Bordeaux, especializados em vinhos da Córsega, que me chamaram atenção.

Achei interessante perceber, dentro da própria França, que o universo gastronômico da Córsega era tratado como uma especialidade quase estrangeira. Nem sempre você encontra um wine bar só de vinhos do Rhône, do Loire, por exemplo, fora de suas próprias regiões, mesmo estando na França. Ou o wine-bar tem vinhos da própria região ou um mix de tudo.

Mas quando se tem um local especializado numa região é porque de certo modo se entende que aquilo é um nicho de mercado: trabalham com algo diferente, que as pessoas têm curiosidade em conhecer, pela própria raridade. Este é o caso da Córsega.

A visita ao wine bar especializado em vinhos da Córsega de Bordeaux em 2022 foi memorável, pela variedade de rótulos que tinha, pela ambientação e menu especializado em tudo da Córsega. Gostei muito do que degustei, e isso foi alimentando esse desejo de conhecer a região. Era tão singular que parecia outro país.

Costa da Córsega à noite

E é assim que eu vejo a Córsega hoje, depois de tê-la visitado recentemente – porque percebi que os próprios franceses de fora e de lá se entendem como diferentes, integrados pela língua e pela cidadania, mas com identidades distintas.

A visita à ilha da Córsega vale muito a pena. Primeiramente, por sua paisagem exuberante, mas também porque o vinho, a gastronomia e a identidade particular ajudam a constituir esse conjunto de delícias que desperta curiosidade aos próprios franceses.

No verão europeu, a Córsega é um destino concorrido. Quarta maior ilha do mar Mediterrâneo, a sudeste da França e a oeste da Itália, há que se reservar hospedagem rapidamente, porque os preços vão aumentando, e a nossa moeda não favorece.

Voos podem atrasar, locações de carro com filas enormes, praias muito cheias e, infelizmente, algumas aparentemente abertas, que contam com áreas privativas, às quais se tem acesso apenas com pré-reservas de longo prazo. Nada que seja exceção da Córsega – faz parte do turismo de alta temporada.

Vista do mar da Córsega

Mas não há como não se encantar com a exuberância desta costa mediterrânea, chamada de Île de Beauté (Ilha da Beleza), com suas águas cristalinas de temperatura amena, que variam do azul anil ao azul turquesa, muito aptas ao banho em mar calmo.

Mar e montanha se combinam à arquitetura histórica de suas cidades litorâneas e a várias formações rochosas. A costa da Córsega tem cerca de 1.000 km e é possível percorrê-la em poucos dias, visitando suas principais cidades: Ajaccio, Calvi, Bastia, Porto Vecchio, Bonifacio, entre outras.

A viagem por si só é deslumbrante: estradas sinuosas, rodeadas de montanhas altamente erodidas, onde se pode ver com clareza a formação geológica que nutre os vinhedos das uvas Vermentinu, Niellucciu e Sciccarellu. Estas são as cepas principais, que mostram a forte base identitária italiana, mas já com uma linguagem própria.

De fato, como o país esteve sob domínio italiano por muitos séculos, a França é uma vestimenta mais moderna, que nem todos parecem reconhecer. Alguns falam com orgulho de serem da terra natal de uma das maiores personalidades históricas francesas – Napoleão Bonaparte nasceu em Ajaccio em 1769. Mas muitos se reconhecem mais alinhados com a herança toscana e genovesa, o que se pode identificar pela viticultura.

Em processo de discussão sobre a passagem a uma maior autonomia política, a Córsega é uma nação com língua própria – o corsu. Nos vinhos, há uma grande transformação em andamento nas ultimas décadas, que veremos em alguns artigos a seguir.

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